Resenha: Sexo invisível: o verdadeiro papel da mulher na pré-história

Autores: James M. Adovasio,
Olga Soffer, Jake Page
Editora: Record
Páginas: 312


Sinopse: Neste livro, os autores introduzem um novo olhar sobre a Pré-História, apresentando algumas das principais contribuições da mulher neste período. Os autores defendem, por exemplo, que as mulheres foram responsáveis pela invenção dos meios essenciais para a sobrevivência, incluindo as roupas para climas mais frios, a agricultura, as cordas usadas para fabricar as jangadas, que permitiam longas viagens pela água, e as redes usadas em caças coletivas. Segundo os autores, as mulheres também teriam um papel fundamental no desenvolvimento da linguagem e das habilidades sociais, que resumem a evolução humana. O livro revoluciona os conceitos antigos e revela um novo papel das mulheres na pré-história, desafiando as ideias feitas sobre o gênero.



Resenha:

Autores

James M. Adovasio arqueólogo americano, especialista em artefatos perecíveis como cestos e têxteis. Diretor do Instituto Arqueológico Mercyhurst na Universidade de Mercyhurst em Erie, Pensilvânia. Ficou conhecido pelos trabalhos que colaboraram no debate sobre o "Primeiro Clóvis". Publicou cerca de 400 livros, monografias, artigos e documentos em seu campo de estudo.

Olga Soffer antropóloga americana, professora de antropologia na Universidade de Illinois, Urbana, Illinois. Especialista em arqueologia do Velho Mundo (com ênfase na pré-história da Europa Central e Oriental), atua nos campos de estudos sobre o estilo de vida dos caçadores-coletores, teoria antropológica e arqueológica, paleoantropologia, ecologia do Pleistoceno e arqueozoologia.

Jake Page jornalista e escritor, publicou dezenas de livros, principalmente sobre ciência, história natural e cultura indígena americana, foi o editor fundador da Smithsonian Books e colaborador de longa data da revista Smithsonian.

De que trata o livro

O objetivo dos autores é elaborar uma reconstrução acerca da imagem largamente difundida sobre os papeis do homem e da mulher na pré-história. Os autores elaboram uma tese de que as primeiras evidências da pré-história, encontradas pelos arqueólogos, foram interpretadas de forma equivocada. Essas interpretações estariam baseadas no subconsciente desses pesquisadores homens, imersos em uma sociedade patriarcal e machista. Os autores esclarecem que o cientista é um produto de sua própria época, que ele interpreta o que vê de acordo com o que traz em sua formação como pessoa, e isso pode ter influenciado na projeção de uma sociedade ancestral patriarcal aonde o homem tinha um papel protagonista, de caçador superpoderoso, e à mulher seria relegado um papel secundário.

Através de novas evidências e da reinterpretação de evidências já conhecidas, os autores propõem que a mulher teve papel fundamental na evolução da espécie humana, tanto culturalmente como biologicamente. A tese dos autores é que a mulher não foi somente uma coadjuvante, ou teve um papel secundário na provisão de recursos para a tribo, mas que ajudou ativamente e foi, inclusive, descobridora de técnicas, ou inventora de artefatos, sem os quais a espécie humana nunca teria chegado aonde chegou. Algumas evidências apontam que a invenção da agulha, da costura, da tapeçaria e da cestaria teriam sido cruciais para a sobrevivência em épocas e locais de extremo frio. Além disso, estudos com fósseis de humanos, da época da transição de caça/coleta para cultivo, apontam que as mulheres se tornaram sedentárias antes dos homens, ou seja, elas teriam sido as inventoras da agricultura, ou pelos menos, seriam elas que cuidariam das primeiras plantações e colheitas, enquanto os homens continuariam caçando e andando longas distâncias. Esse hábito, de caminhar longas distâncias, deixa marcas nas cristas dos fêmures que podem ser acessadas, hoje, pelos arqueólogos.

Outro ponto, que os autores tentam desmitificar, é em relação às armas e instrumentos de caça, para eles tanto as mulheres produziam instrumentos de caça quanto caçavam, e que os homens também se dedicavam a trabalhos manuais, como costurar peles e redes. 

Outro fator importante ao longo da nossa evolução, e que também estaria relacionada às mulheres, seria a invenção da fala, não existem teorias que comprovem como ela surgiu, nem quando, nem onde, mas se acredita que as pessoas pensavam simbolicamente e utilizavam a transmissão de sons para facilitar a transmissão de informações. Essa transmissão de sons seria crucial para a sobrevivência da prole, e é muito plausível que o aumento na complexidade da comunicação e o surgimento da linguagem tenha se dado nesse contexto. 

Trecho favorito, com justificativa

“Em seguida ela estudou os vestígios de gente que viveu em um grande pueblo no Novo México, [...] havia uma agricultura intensiva no local, com vários campos dedicados ao cultivo de milho, abóbora e feijão. A falta de sinais de mobilidade nos fêmures tanto de homens quanto mulheres deste lugar era a mesma. Eram um exemplo de vida sedentária. [...] O departamento de estradas chamou os arqueólogos, que descobriram vestígios de um povo que estava, cerca de 3.500 anos atrás começando a transição da coleta para o cultivo [...] Apenas os fêmures de homens tinhas cristas pronunciadas. Os homens continuaram a passar muito de seu tempo perambulando pelas cercanias, caçando (ou vadiando?). Os fêmures das mulheres não tinham as cristas e eram menos robustos, resultado claro de uma vida sedentária. Estas mulheres de Cochise haviam abandonado a vida de longas caminhadas, própria de coletores, e permaneciam próximas aos assentamentos a maior parte do tempo, talvez cuidando das plantas ou, como alguém pode dizer, inventando a agricultura.”  (JM Adovasio, O Soffer e J Page, 2009, pág 254).

Esse foi um dos meus trechos favoritos. Escolhi esse por mostrar uma evidência muito consistente a respeito do papel das mulheres em um dos maiores passos da nossa evolução cultural e biológica. Além disso, nesse trecho fica muito evidente como o arqueólogo trabalha: no início se explica como é a pesquisa da arqueóloga com um povo atual, que pratica a agricultura, tem uma vida sedentária e como se busca a delimitação de um padrão quanto à forma, robustez e marcas nos fêmures das pessoas que vivem atualmente e possuem esse modo de vida. Logo em seguida mostra a investigação utilizando os vestígios de um povo que viveu há 3.500 anos, como eram os fêmures dos homens e das mulheres e relaciona as marcas deixadas nos ossos com o hábito de vida de cada gênero. Achei interessante esse trecho, pois essa pesquisa encontra indícios nos povos atuais, seus hábitos relacionados aos registros que ficam em seus ossos e depois essa informação é usada para interpretar as evidências dos humanos ancestrais. Além de ser uma pesquisa elegante e robusta, ela nos traz uma evidência consistente do papel da mulher nesse momento da evolução humana, relacionado ao hábito sedentário e à invenção da agricultura.

“Os arqueólogos têm duas vantagens nesta região. Uma é a riqueza do material arqueológico, a outra é a existência de alguns descendentes dos povos pré-históricos locais. Hoje, os hopis e os zunis, bem como as 19 populações de Rio Grande Pueblo, conservam muitos costumes e sensibilidades supostamente ancestrais que podem munir o arqueólogo cauteloso com insights úteis daqueles tempos antigos. Por esta gente ser, pelo menos em parte, descendente dos ilustres povos Anasazi e Mogollon, muitos são tradicionais ao extremo. Entre os hopis, de hoje, por exemplo, as mulheres têm a propriedade dos campos, que são passados de geração em geração pelo clã maternal da mulher. As mulheres são donas também da colheita, assim que esta é entregue para ela por seu marido e filhos, que trabalham na plantação. O marido se muda para a casa da mulher, que é dela, mesmo se foi ele que construiu para ela, e se o casamento está, na opinião dela, encerrado, ela simplesmente bota os pertences do esposo para fora e ele volta para a casa ou aldeia da mãe. Não há razão lógica para imaginar que isto é algo recente. Isto se chama matrilinearidade e matrilocalidade – não matriarcado – e é uma tradição poderosa que surgiu em muitos lugares para controlar a tendência masculina de assumir o controle se lhes é dada a chance.” (JM Adovasio, O Soffer e J Page, 2009, pág 279).

Esse foi outro dos meus trechos favoritos e eu o escolhi por trazer hábitos muito plausíveis, de um povo atual que, muito possivelmente, preserva hábitos dos nossos ancestrais e pode retratar como a sociedade primitiva era organizada. O trecho sintetiza a ideia do livro, ao mesmo tempo que mostra como podemos, de forma cautelosa, utilizar hábitos e tradições de povos atuais para tentar inferir como se comportavam nossos ancestrais.

Impressões de leitura

Achei o livro excelente, tanto do ponto de vista da evolução humana quanto da releitura do papel da mulher nesse processo. Os autores fazem uma excelente revisão sobre evolução, desde as bases genéticas, passando pela seleção natural até estudos de comportamento, tanto de nossos parentes primatas atuais, quanto de comunidades que guardam tradições que devem ser muito antigas, para tentar entender o verdadeiro papel da mulher na pré-história. Os autores se preocupam em desfazer um pouco a imagem no inconsciente coletivo onde os homens pré-históricos foram os protagonistas, que caçavam e abasteciam as famílias, enquanto as mulheres ficavam com o papel de coleta de subsistência e cuidado da prole. O livro apresenta várias evidências consistentes para desmitificar muito do que foi elaborado a respeito do papel de cada gênero ao longo da pré-história. Ao passo que vamos avançando na leitura, a impressão é de que estamos lendo a respeito de uma história muito conhecida, mas da qual sabíamos muito pouco, com alguns elementos equivocados e cheia de lacunas. Ao recontar a história, preenchendo as lacunas, trazendo novos elementos e novas interpretações, os autores tornam essa história muito mais rica, verossímil e plausível.

Por que recomendar (ou não recomendar) este livro?

Recomendo fortemente a leitura desse livro, além da linguagem acessível, os autores fazem uma bela revisão a respeito da evolução humana, tratam de temas cruciais para se entender o contexto da nossa evolução, como as bases genéticas, a seleção natural e estudos de comportamento. Eles também apresentam várias evidências e novas interpretações sobre o papel da mulher na pré-história. É um livro altamente esclarecedor em diversos aspectos e nos ajuda a ampliar a visão de mundo, no que diz respeito a questões de gênero, mas também sobre nossa evolução como espécie.



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